Ontem foi um dia pra lá de movimentado. Logo de manhã estava lendo rumores que, durante à tarde se tornaram oficiais, sobre a descontinuação do Adobe Flash Player para dispositivos móveis.

A repercussão foi enorme, centenas de blog de tecnologia correram para divulgar a notícia e logo surgiram muitas informações equivocadas sobre o assunto.

Sei que muitos já noticiaram isso, mas como ex-desenvolvedor Flash e atual membro ativo na evangelização de HTML5 aqui no Brasil, me sinto na obrigação de expressar minha opinião sobre esse assunto.

O que exatamente aconteceu?

Se você não acompanhou tudo isso, é o seguinte:

Danny Winokur, vice-presidente da Adobe, fez um comunicado em um dos blog oficiais da empresa, afirmando que o desenvolvimento do Flash Player para os navegadores dos dispositivos móveis seria descontinuado.

“We will no longer continue to develop Flash Player in the browser to work with new mobile device configurations (chipset, browser, OS version, etc.) following the upcoming release of Flash Player 11.1 for Android and BlackBerry PlayBook. We will of course continue to provide critical bug fixes and security updates for existing device configurations.”

Steve Jobs estava certo?

Quando o então CEO da Apple, escreveu a carta Thoughts on Flash em abril de 2010, manifestando os porquês da decisão de não suportar Flash no sistema operacional do principal dispositivo móvel do mundo, o iPhone, todos acreditavam ser o início de uma batalha entre a Apple e a Adobe.

Aí veio o Android e decidiu suportar abocanhar parte desse mercado oferecendo suporte ao Flash Player em seus sistemas operacionais. Legal.

O fato é que Steve Jobs queria apenas entregar a melhor experiência para aqueles que adquiriam seu produto. E cá entre nós, a experiência de visualizar um site inteiro em Flash em um Android nunca foi das melhores.

Ah sim, se o Steve Jobs estava certo? Pois é, estava. Só faltava a Adobe reconhecer isso.

Então quer dizer que é o fim do Flash?

Absolutamente não, o novo Flash Player 11 “Molehill” para PCs vem com tudo. A principal aposta é o Stage 3D, permitindo aceleração de hardware pela GPU (coisa que WebGL já faz inclusive).

A Adobe sabe que existem milhões de desenvolvedores Flash por aí.

Por isso a tendência é que o produto venha atacar a área de games e vídeos com toda força.

É só uma mudança de direção

Há alguns meses a empresa já dava sinais claros de que estava de olho no mercado de HTML5. Primeiro ao lançar um produto chamado Wallaby no qual convertia arquivos FLA em HTML (inclusive testado aqui no blog). E depois ao lançar o Adobe Edge, uma ferramenta para criar animações utilizando HTML5, CSS3 e JavaScript.

Isso sem falar nas recentes aquisições da Typekit, empresa responsável por auxiliar no uso de fontes personalizadas na web utilizando a propriedade @font-face do CSS3. E também da Nitobi, empresa por trás do PhoneGap, plataforma muita conhecida no desenvolvimento de apps para dispositivos móveis utilizando HTML5.

Esse foi apenas mais um sinal que demonstra como a empresa tem concentrado seus recursos na direção do HTML5. Seja desenvolvendo ferramentas, como aquelas citadas acima, seja unindo-se a W3C para criar coisas ainda mais legais como o CSS Shaders.

E o melhor, não é só a Adobe que vem se movimentando nesse sentido. A Microsoft também percebeu de que não adianta lutar contra o HTML5 e parece que o desenvolvimento do Silverlight também será descontinuado após o lançamento da versão 5.

Porém, só existe uma web

Fico feliz que a Adobe tenha admitido que rodar Flash em um navegador de celular não proporciona a melhor das experiências. E que o foco para dispositivos móveis agora se volta para o desenvolvimento de apps com Adobe Air.

Só que na medida que você restringe um usuário a acessar determinado site apenas pelo PC e não pelo seu celular, algo de muito errado está aí.

Mobile não é mais o futuro e sim o presente.

O gráfico abaixo, retirado do livro Mobile First da editora A Book Apart, aponta que em 2012 o acesso à internet por dispositivos móveis ultrapassa o acesso por PCs.

Meu ponto é, não existe uma “web mobile” e uma “web PC”, existe apenas uma web. E se a Adobe toma decisão de não tocar mais Flash em celulares, isso já é um grande sinal do que está por vir.

Eu sempre fui fã do Flash e vou continuar sendo, mas com o anúncio da Microsoft de que não haverá suporte a plugins Windows 8 no modo touch e também com a recente notícia de que a Adobe irá demitir cerca de 750 funcionários, fica difícil prever um futuro muito longo pra essa tecnologia.

Por fim

Se tem uma lição de vida que fica com essa história é: saiba bem com que tecnologias proprietárias você está lidando. Conheço profissionais que dedicaram toda sua vida ao aprendizado e aprofundamento de tecnologias como Flash e até empresas inteiras que comercializam apenas produtos em Flash, e que hoje sofreram um abalo considerável.

É claro que nada desse conhecimento é jogado no lixo, afinal muita gente já ganhou dinheiro, e muito, com o Flash, mas lembre-se de que como desenvolvedor você tem total liberdade para escolher qual linguagem se aprofundar. Tome essa decisão sabiamente.